Disco lindo e esgotado!Não cabe maiores explicações!
Ouça na Vitrola
Como já puderam perceber, por aqui eu costumo escrever muito sobre o samba, seus "derivados" e de um modo geral sobre tudo que se relaciona a ele no intimo ou de forma opositiva. Pois é! Mas ao pensar com os grandes botões do meu vestido, observei no quanto fui tonta em falar tanto em samba deixando de lado o Jongo! Isso sem falar no Caxambú, Coco de Roda (primo nordestino do samba), Batuque (primo paulista), no Maxixe, e no Choro, que terão seus respectivos momentos em breve. Mas voltando... Como esquecer do jongo, se ele é pra mim a semente do samba e do partido alto? Há tempos não se via abrir uma roda com cavaquinhos, tambores e palmas de mão e mesmo assim há tanta gente que ainda não o conhece. Pra corrigir esta vacilação pessoal e ajudar de forma simples na divulgação desta maravilha de pés no chão, ofereco um presente a vocês; a exibição do curta - metragem encontrado no Youtube "Jongo com Mestre Darcy". Um belo registro feito pelo diretor Guilherme Fernandez, em que o grande mestre jongueiro abre as portas do seu barraco e mostra toda sua genialidade numa conversa realmente afinada. O Mestre Darcy teve a sorte em ver o Jongo começar a ser tratado como deve, diferente da sua mãe e tantos outros mestres como
o próprio Aniceto. "Redescoberto" pela juventude cult da Lapa, o Jongo entrou na vida da classe média carioca, tamém passou a ser reaprendido nos morros e comunidades, pisou nos placos dos grandes teatros pelo Brasil e exterior, se organizou tornando-se bem imaterial, grupo cultural, ONG, contudo não retirou o mestre e tantos outros da situação de pobreza vivida. O mestre fundador do Jongo da Serrinha faleceu em 2001, mas Vovó Maria segue no matriarcado firme e forte. Quanto ao Mestre Darcy? Ele está sempre presente onde existir uma roda com tambores, cavaquinho, saias rodando, palmas de mão e pés no chão. Machado!
1-Quatro loucos num samba
Segunda - feira, dia oficial da volta a algumas atividades rotineiras. Acordei cedo, segui todo o ritual de higiene matinal, em seguida fui pro quintal tirar da corda as roupas na Dona Aracy. Tamanco nos pés, ladeira a baixo com a trouxa na cabeça, tendinha do Seu Severino, criançada brincando com bolinha de gude, empinando pipa, pessoal saindo de casa a caminho do trabalho, e claro, malandro sempre corujando o movimento. Já no asfalto eu encontro com Belé. Ele é um crioulo metido a galã de rádio novela, que vive a fazer elogios dos meus atributos e de qualquer nêga que passa perto dele em qualquer lugar. Pode ser no samba, pode ser na rua, no beco, ladeira, pode até ser no bonde. Pra ele qualquer hora é hora de versar acompanhado pelo ritmo que surgia de um latão de manteiga. Acho que ele é a figura mais querida do morro, mais um vivente do mundo dos bambas, biritas, vadiagem e cabrochas. O Severino, dono da tendinha vivia a incentivar o talento do Belé, afirmando que seus sambas eram coisa fina, que não poderiam ficar confinados. Tinham que ganhar o asfalto!
pra algum cantor do asfalto. Num desses dias a caminho do trabalho o crioulo versa pra mim com a sua lata na mão. Mas não era um verso alegre e assanhado como de costume, era um lamento. Senti que ele queria conversar, que gostaria de receber atenção de verdade. Não era dengo de neguinho esperto, ele naquele momento não queria a mesma e única atenção só recebida na tendinha, no butéco quando neguinho já alto de bebida, mandava ele versar em troca de umas e outras, um prato de picadinho e quando muito uns trocados. Larguei a trouxa no chão, e bem pertinho dele ouvi seu longo e triste desabafo: "Não dá pé Pretinha! Os bacana sobe aqui, vem com um papo de tapear neném pra comprar meu samba por um trocado qualquer. É tão pouco que o valor que me oferecem não paga nem o lenço branco que eles enxugam o suor do rosto. Todo mundo me chama de burro, por não vender meus sambas. Que não adianta serem bons se não dão dinheiro. Eles podem até me chamar de otário, mas pelo menos eu não fico como o resto da turma por aí e por aqui vende samba mermo sem pena, mas depois fica chorando no copo da branquinha por que não saiu seu nome no disco, não falam dele no rádio. Se for pra ser assim eu prefiro ficar por aqui versando pra você esperando uma chance de mexer no teu chamego. Mas francamente Binidita, eu quero que a minha gente saiba que fui eu que fez o samba que toca no rádio. Quero que sintam orgulho de mim, que sintam orgulho deles mesmos. Isso não é orgulho besta, isso é sentimento. Um negócio que é meu e não vendo por qualquer cem contos de réis".